quarta-feira, 31 de outubro de 2012

31 de Outubro – Dia da Reforma Protestante


31 de Outubro – Dia da Reforma Protestante


Assim como a fé bíblica é profundamente histórica, porque fundamentada em atos redentores realizados no tempo e no espaço, a fé reformada valoriza extraordinariamente a história da igreja. O nosso senso da história nos lembra que a igreja cristã não começou com a reforma protestante do século dezesseis. Foi por isso que reformadores como Lutero e Calvino não quiseram romper com tudo o que dizia respeito à igreja antiga e medieval. Por exemplo, eles fizeram questão de reconhecer a validade dos antigos concílios ecumênicos da igreja (séculos quarto e quinto) e das extraordinárias formulações teológicas produzidas pelos mesmos – os credos, especialmente o niceno e o de Calcedônia. Os reformadores magisteriais, Calvino entre eles, também tinham grande apreço pelos antigos mestres cristãos, os pais da igreja, e os citaram abundantemente em seus escritos. É por isso que devemos recitar esses credos, utilizar as antigas liturgias, cantar hinos de séculos passados. Não é questão de tradicionalismo: tudo isto nos coloca em contato com a igreja do passado, da qual somos herdeiros e continuadores.
No seu sentido mais amplo, “protestantismo” denomina todo o movimento dentro do cristianismo que se originou na reforma do século XVI e que mais tarde centrou-se nas principais tradições da igreja reformada – Luterana Reformada (Calvinista/Presbiteriana) e Anglicano-Episcopal (embora o anglicanismo alegue ser tanto católico quanto protestante) e Speyer, 1529, com os primeiros dissidentes de uma imposição religiosa, e continuando com os batistas, metodistas, pentecostais, até às igrejas Africanas Independentes dos nossos dias.
             O termo deriva-se do “protesto” entregue por uma minoria de autoridades luteranas e reformadas na Dieta Imperial Alemã em Speyer em 1529, numa dissidência causada por uma ordem imposta que proibia a renovação religiosa. O “protesto” era, ao mesmo tempo, uma objeção, um apelo e uma afirmação. Perguntava em tons urgentes: “Qual é a igreja verdadeira e santa?”; e asseverou: “Não há nenhuma pregação ou doutrina segura senão aquela que permanece fiel à Palavra de Deus. Segundo mandamento divino, nenhuma outra doutrina deve ser pregada. Todo texto das santas e divinas Escrituras deve ser elucidado e explicado por outros textos. Esse Livro Santo é necessário, em todas as coisas, para o cristão; brilha claramente na sua própria luz e é vista iluminando as trevas. Estando resolutos, pela graça de Deus e com a Sua ajuda, a permanecermos exclusivamente na Palavra de Deus, no santo evangelho contido nos livros bíblicos do Antigo e do Novo Testamento. Somente essa Palavra deve ser pregada, e nada que seja contrário a ela. É a única verdade. É o juiz certo de toda doutrina e conduta cristã. Não pode nos enganar nem lograr”.
Desse modo, os luteranos e outros defensores da reforma passaram a ser conhecidos como protestantes. A palavra tinha, originalmente, um sentido de “confissão resoluta, declaração solene”, tomando o partido da verdade do evangelho contra a corrupção romana. “Essencialmente, o protestantismo é um apelo a Deus em Cristo, às Sagradas Escrituras e à Igreja Primitiva, contra toda a degeneração e apostasia”. O estreitamento da palavra “protestante” para significar anti- ou não-romano tem levado alguns a preferirem “evangélico” (embora na Europa continental essa palavra normalmente designe os luteranos) e “reformado” (geralmente mais usada para os presbiterianos calvinistas).


PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS

            Os princípios fundamentais do protestantismo do século XVI eram os seguintes: sola scriptura, solus christus, sola gratia, sola fides, soli Deo gloria, a igreja como o povo que crê em Deus e o sacerdócio universal dos fieis.
            Vejamos resumida e separadamente cada um desses princípios da Reforma Protestante:


SOLA SCRIPTURA

Só a Escritura é a regra inerrante da vida da igreja, mas a igreja evangélica atual fez separação entre a Escritura e sua função oficial.
Em tese, Sola Scriptura, significa reafirmar a Escritura como única fonte de revelação divina escrita, única para constranger a consciência. A Bíblia sozinha ensina tudo àquilo que é suficiente e necessário para nossa salvação do pecado, e é o padrão pelo qual todo comportamento cristão deve ser avaliado.
Esse princípio nega qualquer credo, concílio ou indivíduo possa constranger a consciência de um crente, que o Espírito Santo fale independentemente de, ou contrariando, o que está exposto na Bíblia, ou que a experiência pessoal possa ser veículo de revelação. 
No Sola Scriptura, acredita-se na liberdade da Escritura para dominar como a Palavra de Deus na igreja, desembaraçada do magisterium (magistrados) e tradição papais e eclesiásticos. A Escritura é a única fonte da revelação cristã. Embora a tradição possa ajudar a sua interpretação, seu significado verdadeiro (i.e., espiritual) é seu sentido natural (i.e., literal), e não um significado alegórico.


SOLO CHRISTUS

À medida que a fé evangélica se secularizou, seus interesses se confundiram com os da cultura. O resultado é uma perda de valores absolutos, um individualismo permissivo, a substituição da santidade pela integridade, do arrependimento pela recuperação, da verdade pela intuição, da fé pelo sentimento, da providência pelo acaso e da esperança duradoura pela gratificação imediata. Cristo e sua cruz se deslocaram do centro de nossa visão.
Em tese, Solus Christus é reafirmar que nossa salvação é realizada unicamente pela obra mediatória do Cristo histórico. Sua vida sem pecado e sua expiação por si só são suficientes para nossa justificação e reconciliação com o Pai.
Esse princípio nega que o Evangelho esteja sendo pregado se a obra substitutiva de Cristo não estiver sendo declarada e a fé em Cristo e sua obra não estiver sendo invocada. 


SOLA GRATIA

A Confiança desmerecida na capacidade humana é um produto da natureza humana decaída. Esta falsa confiança enche hoje o mundo evangélico – desde o evangelho da auto-estima até o evangelho da saúde e da prosperidade, desde aqueles que já transformaram o evangelho num produto vendável e os pecadores em consumidores e aqueles que tratam a fé cristã como verdadeira simplesmente porque funciona. Isso faz calar a doutrina da justificação, a despeito dos compromissos oficiais de nossas igrejas.
A graça de Deus em Cristo não só é necessária como é a única causa eficaz da salvação. Confessamos que os seres humanos nascem espiritualmente mortos e nem mesmo são capazes de cooperar com a graça regeneradora.
Em tese, Sola Gratia é reafirmar que na salvação somos resgatados da ira de Deus unicamente pela sua graça. A obra sobrenatural do Espírito Santo é que nos leva a Cristo, soltando-nos de nossa servidão ao pecado e erguendo-nos da morte espiritual à vida espiritual.
Esse princípio nega que a salvação seja em qualquer sentido obra humana. Os métodos, técnicas ou estratégias humanas por si só não podem realizar essa transformação. A fé não é produzida pela nossa natureza não-regenerada. 
A redenção como dom gratuito de Deus, realizada pela morte e ressurreição salvíficas de Cristo. Essa verdade foi articulada principalmente em termos paulinos, tais como a justificação somente pela fé, como consta na Confissão de Augsburgo: “Não podemos obter o perdão do pecado e a justiça diante de Deus pelos nossos próprios méritos, obras ou penitências, mas recebemos o perdão do pecado e nos tornamos justos diante de Deus pela graça, por causa de Cristo, mediante a fé, quando cremos que Cristo sofreu por nós e que por Sua causa o nosso pecado é perdoado e recebemos a justiça e a vida eterna”. A certeza da salvação, portanto, é uma marca distintiva da fé protestante, fundamentada na promessa do evangelho e desvinculada de qualquer busca de mérito.

SOLA FIDE

A justificação é somente pela graça, somente por intermédio da fé, somente por causa de Cristo. Este é o artigo pelo qual a igreja se sustenta ou cai. É um artigo muitas vezes ignorado, distorcido, ou por vezes até negado por líderes, estudiosos e pastores que professam ser evangélicos. Embora a natureza humana decaída sempre tenha recuado de professar sua necessidade da justiça imputada de Cristo, a modernidade alimenta as chamas desse descontentamento com o Evangelho bíblico. Já permitimos que esse descontentamento dite a natureza de nosso ministério e o conteúdo de nossa pregação.
Em tese, Sola Fide é reafirmar que a justificação é somente pela graça somente por intermédio da fé somente por causa de Cristo. Na justificação a retidão de Cristo nos é imputada como o único meio possível de satisfazer a perfeita justiça de Deus.
Esse princípio nega que a justificação se baseie em qualquer mérito que em nós possa ser achado, ou com base numa infusão da justiça de Cristo em nós; ou que uma instituição que reivindique ser igreja mas negue ou condene sola fide possa ser reconhecida como igreja legítima. 


SOLI DEO GLORIA

Deus não existe para satisfazer as ambições humanas, os desejos, os apetites de consumo, ou nossos interesses espirituais particulares. Precisamos nos focalizar em Deus em nossa adoração, e não em satisfazer nossas próprias necessidades. Deus é soberano no culto, não nós. Nossa preocupação precisa estar no reino de Deus, não em nossos próprios impérios, popularidade ou êxito.
Em tese, Soli Deo Gloria é reafirmar que, como a salvação é de Deus e realizada por Deus, ela é para a glória de Deus e devemos glorificá-lo sempre. Devemos viver nossa vida inteira perante a face de Deus, sob a autoridade de Deus, e para sua glória somente.
Esse princípio nega que possamos apropriadamente glorificar a Deus se nosso culto for confundido com entretenimento, se negligenciarmos ou a Lei ou o Evangelho em nossa pregação, ou se permitirmos que o afeiçoamento próprio, a auto-estima e a auto-realização se tornem opções alternativas ao evangelho.


A IGREJA COMO O POVO QUE CRÊ EM DEUS

Constituída não apenas pela hierarquia, sucessão ou instituição, mas pela eleição e chamada divinas em Cristo mediante o evangelho. Nas palavras da Confissão de Augsburgo, é “a assembléia de todos os crentes onde o evangelho é pregado na sua pureza e os santos sacramentos são administrados de acordo com o evangelho”. Os sacramentos ordenados por Cristo são apenas dois – o batismo e a ceia do Senhor – e podem ser chamados “palavras visíveis”, refletindo a primazia da pregação dentro da convicção protestante.


O SACERDÓCIO DE TODOS OS CRENTES

A liberdade privilegiada de todos os batizados de comparecerem diante de Deus em Cristo “sem intermediários humanos patenteados” e sua chamada para serem transmissores de julgamento e graça como “pequenos Cristos” aos seus vizinhos. O pastor e o pregador diferem dos outros cristãos pela sua função e nomeação, e não por status espiritual. (Este princípio fundamental tem sido esquecido pelo protestantismo posterior, talvez mais do que qualquer outros desses princípios.)
            A Santidade de Todos os Chamados ou Vocações: a rejeição das distinções medievais entre o secular e o sagrado ou “religioso” (i.e., monástico) com depreciação daquele, e o reconhecimento de todas as maneiras de ganhar a vida como vocações divinas. “As obras dos monges e dos sacerdotes, aos olhos de Deus, não são de modo algum superiores ao trabalho do agricultor no campo, nem ao serviço de uma mulher que cuida do seu lar” (Lutero). Nenhum chamado é intrinsecamente mais cristão do que outro – uma percepção que é obscurecida por frases tais como “o sagrado ministério”.    

             
FONTE BIBLIOGRÁFICA:

  • ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. [Tradução Gordon Chown]. São Paulo: Edições Vida Nova, reimpressão em 1993. Volumes 3 (pp. 194-195).
·         Os Cinco Solas da Reforma - Sola Scriptura, Sola Christus, Sola Gratia, Sola Fide, Soli Deo Gloria, por Declaração de Cambridge. In: http://www.monergismo.com.
  • MATOS, Alderi Souza de. Aspectos Essenciais Da Identidade Reformada. In: http://www.monergismo.org

Nenhum comentário: